Entrevista - Thiago Novaes

Thiago NovaesThiago Novaes integra a Coordenação Nacional do Projeto Casa Brasil, do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) - Casa Civil da Presidência da República. Bacharel em Ciência Política pela Unicamp, coordenou em 2005 a implementação dos Pontos de Cultura, projeto de difusão cultural do Ministério da Cultura (MinC).Trabalhou de 2002 a 2004 como pesquisador na Diretoria de TV Digital do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (CPqD), responsável por serviços interativos e audiovisual. Atua há 10 anos em pesquisa e implementação de rádios de baixa potência, tendo publicado artigos e traduções na Internet. Foi também um dos facilitadores em diversas oficinas do Ponto de Cultura Figuras em Trânsito (Casa Curta-SE - Aracaju) e da sexta edição do Festival Luso-Brasileiro de Curtas-Metragens de Sergipe (Curta-SE 6). Na entrevista que segue, Thiago Novaes fala de cultura digital, software livre, inclusão social e auto-sustentabilidade de projetos culturais.

Casa Curta-SE (CC) – Na sua avaliação, que papel pode desempenhar um ponto de cultura como o Figuras em Trânsito no desenvolvimento do audiovisual em Sergipe?

Thiago Novaes – O projeto Figuras em Trânsito oferece uma oportunidade aos alunos de escolas do ensino médio e interessados na produção audiovisual em geral de ampliarem suas referências cinematográficas ao promover exibições de filmes pouco conhecidos, mas também de discutirem os rumos que a produção, edição, finalização e publicação de vídeos pode ter por meio da Internet. Voltado para o publico jovem, o projeto colabora para a formação ampliada dos alunos e sugere novos modelos de produção que certamente trarão impactos profundos para a reformulação de todo um setor audiovisual em franco crescimento.

CC – Em breves palavras, o que significa software livre e que importância ele pode ter para projetos sócio-educativos e culturais com o Figuras em Trânsito?

Novaes – O software livre, utilizado preferencialmente em projetos de tecnologia social, é um software que pode ser baixado na internet e ser melhorado ou distribuído com novas versões atualizadas. Entendido como uma ferramenta em constante desenvolvimento, o software livre proporciona uma outra relação entre usuário e programador, onde um se comunica com outro para reportar problemas e soluções, os chamados bugs, construindo uma reação de comunidade, o que não ocorre na relação cliente versus empresa. Além disso, para aqueles que nunca utilizaram o computador, o software livre é ideal para o aprendizado, sobretudo coletivo, onde as pessoas se beneficiam de interfaces cada vez mais amigáveis, mas também podem investir sobre o aprendizado de uma outra língua, a língua dos programadores, pois o software livre tem seus códigos abertos para estudo e melhorias constantes. Vale dizer também que todo dinheiro economizado no pagamento de licenças do software proprietário podem ser revertidas para a capacitação de corpo técnico que assegure o suporte necessário ao pleno uso dos computadores, seja presencialmente, ou mesmo remotamente, utilizando a própria Internet para solucionar problemas.

CC – Em 70 nós tivemos uma geração que pregava o amor livre, hoje pregamos o software livre! Como você acha que as pessoas recebem toda essa informação? Há resistência?

Novaes - O problema da circulação da informação pouco a pouco vai sendo resolvido quando as pessoas se dão conta que a mídia muitas vezes mente, ou passa uma versão distorcida dos fatos. Alguns acreditam se tratar de um problema ético, de conteúdo, quando não se dão conta da mudança em curso promovida pela digitalização dos meios de comunicação, onde temos acesso direto à informação, sem intermediários, editores, distribuidores, como no caso da Internet com blogs, fotologs e até mesmo videologs. A resistência existe para tudo que é novo, mas aos pouco os valores que o software livre agrega, que beneficiam a todos, e não a uma minoria proprietária dos meios, ganha terreno e se constitui numa das ferramentas de equidade e justiça social que ha tanto tempo muitos de nos almejamos, e que agora materializamos em formas colaborativas e inteligentes de produção. É sobretudo um movimento de generosidade intelectual, onde não há perdedores, mas somente vencedores pois todos ganham com a colaboração em rede.

CC – Hoje nós vemos novos conceitos sendo disseminados na internet, como as licenças flexíveis no site do Creative Commons, por exemplo, o crescimento dos fóruns, do compartilhamento e da divulgação dos bens culturais. Pessoas produzindo cultura sem precisar de estúdios ou grandes gráficas. A internet é um grande meio para revolucionar essa indústria tradicional?

Novaes - Sim. A Internet faz implodir um modelo de controle de distribuição, informação e cultura de bens materiais escassos, sugerindo uma passagem a uma sociedade de bens imateriais cujo acesso universal deve ser garantido por meio de licenças flexíveis de propriedade intelectual como as citadas, onde não há perda de qualidade na reprodução de textos, musicas e vídeos, e a recombinação desses bens é estimulada. Não se trata de dizer que a indústria cultural tradicional acabou, mas de pensá-la sob a ótica de valorização da experiência, de ter-se um livro com uma qualidade boa de impressão, com boa resolução de imagens, de ir ao cinema e assistir a um filme num telão, com som alto etc. A realidade é que há muito por se descobrir ainda sobre os efeitos da interatividade de todos com todos, mas é certo que modelos de negócio baseados em difícil acesso, escassez e perda de qualidade tendem a sucumbir frente ao compartilhamento veloz de arquivos de excelente qualidade para reprodução de áudio e vídeo, como ogg/vorbis e ogg/theora, formatos livres e em desenvolvimento permanente.

CC – Que discussões você considera centrais para o desenvolvimento e auto-sustentabilidade futura dos pontos de cultura instalados pelo MinC em todo o Brasil?

Novaes - O princípio de sustentabilidade dos projetos é a possibilidade de trabalharem em rede, com ou sem Internet. Acreditamos que o uso pleno da Internet pode favorecer o intercâmbio de conhecimento técnico, por exemplo, quando alguém de um projeto sabe como instalar o software livre e outro de outro projeto, distante ou próximo, sabe fazê-lo e auxilia o colega. Em rede também os projetos podem organizar demandas comuns, elaborar projetos conjuntamente e solicitar recursos para financiar suas atividades. Por fim, é importante destacar que os Pontos de Cultura, assim como as Casas Brasil, são projetos de reconhecido mérito, pois foram selecionados pelo poder público e se encontram, portanto, habilitados a receber financiamentos dos mais diversos fundos existentes, sejam públicos ou mesmo da iniciativa privada, por meio de setores de responsabilidade social que cada vez mais se engajam na luta da cultura livre.

CC – Explique para nossos visitantes em que consiste a Casa Brasil. Que trabalhos vocês desenvolvem através dela? Vocês sentem que estão criando novos rumos para a produção cultural e para os nichos onde ela se concentra? A inclusão é o principal objetivo?

Novaes - O Casa Brasil nasceu para ser o projeto dos projetos de inclusão social do governo Lula. Pensado em módulos, ele tem tudo aquilo que é oferecido aos Pontos de Cultura, como recursos para capacitação e atividades sociais, o kit multimídia para produção de áudio, vídeo e gráfico, possuindo também auditório com telão e projetor, Biblioteca Popular, um Telecentro para acesso e produção para Internet, Laboratório de Metareciclagem de Computadores ou Laboratório de Popularização da Ciência e oficina de produção de conteúdo radiofônico. O Casa Brasil conta hoje com 90 unidades selecionadas por meio de edital público, onde elegeram-se parceiros locais para gestão e implementação de atividades, certamente de inclusão social, onde buscaram-se áreas de baixo desenvolvimento humano e de potencial social relevante, além de cerca de 50 unidades de Telecentros Petrobras, que ampliarão seu escopo e trabalharão com outros módulos previstos para as Casas Brasil. Esperamos que até o final do ano tenhamos resultados que certifiquem o Casa Brasil a solicitar recursos federais para atinjamos a meta inicial de mil Casas Brasil em todo o território brasileiro, promovendo a inclusão de parcelas significativas de nossa população ao uso de tecnologias livres, tentando avançar sobre todo um mundo digital insipiente, agregando valores sociais sem os quais não seria possível obter êxitos a médio e longo prazo, como o compartilhamento do conhecimento e a flexibilização da propriedade intelectual, princípios fundamentais que orientam a generosidade intelectual em curso no Brasil e em todo o mundo.


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