Entrevista - Dora Mourão

Dora Maria MourãoDora Maria Mourão é professora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) e membro do FORCINE (Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual). Ela esteve em Aracaju a convite do Centro de Estudos Casa Curta-SE no ano passado para fazer a abertura oficial do Projeto Figuras Em Trânsito, o ponto de Cultura desenvolvido pela Casa com o apoio do Ministério da Cultura. Além de conversar e tirar as dúvidas do estudantes, ela proferiu na Universidade federal de Sergipe a palestra Os Rumos do Ensino de Cinema e Televisão no Brasil. A seguir, um entrevista exclusiva com a professora, que critica a falta de apoio ao audiovisual no Brasil e defende o financiamento público como a grande saída emergencial para a ampliação do acesso ao cinema.

Casa Curta-SE - Até que ponto projetos como este, do Ponto Figuras em Trânsito, podem estimular a formação de profissionais na área do audiovisual?

Dora Mourão - Eu acho que pode estimular e muito. Isso vai ter um efeito multiplicador enorme. Essas pessoas vão sair desse curso não só produzindo, mas principalmente pensando o fazer audiovisual. Esses 30 vão falar com mais 30, com mais 60… E isso espalhado por todo o Brasil pode gerar em pouco tempo um movimento ligado ao audiovisual, tanto do ponto de vista do pensar como do fazer, e principalmente aliado às novas tecnologias.

As tecnologias digitais baratearam muito o custo de uma câmera. Hoje você tem câmeras digitais muito baratas e que permitem produzir o audiovisual, e com excelente qualidade. Então a aliança entre disseminar cursos para despertar interesses e equipamentos que são relativamente baratos vai fazer com que aumente a produção audiovisual.

É lógico que daí a gente corre o risco: aumenta a produção, mas que produção vai ser essa? De qualquer maneira, isso não tem importância, porque eu acho que só com uma grande produção, você chega à qualidade.

O cinema americano, que produz por volta de 800 filmes de longa-metragem por ano, tem consciência que desses, no máximo 20% são filmes bons. O resto é resto, mas são os que ajudam a movimentar a máquina.

CC-SE - Existe uma concentração de produção e exibição no eixo Rio-São Paulo. Como fazer para descentralizar?

Dora - Tudo passa por uma política pública que desenvolva projetos e determine essa descentralização. Apoios, incentivos. É muito difícil você convencer o empresário que é interessante ele abrir seis salas de cinema no Norte e no Nordeste. Se ele não perceber que vai haver lucro, obviamente não vai fazer porque não está preocupado em disseminar cultura, e sim com o lucro. Então para disseminar cultura só uma política pública.

Não tem outra saída pelo menos para iniciar o processo. Tem projeto no BNDES de incentivo à abertura de mil salas de cinema digitais, que é bem interessante, porque o digital barateia os custos de exibição e, com isso, pode aumentar bastante o número de salas onde ainda não existe cinema. È um projeto público, com incentivo público e que passa por uma política pública.

CC-SE - O Brasil tem um número menor de salas de cinema em relação à população?

Dora - Tem e muito. O Brasil hoje tem 2 mil salas de cinema. Na sua época áurea, o país tinha entre 3 e 4 mil salas. A grande crise diminuiu e chegamos a 2,2 mil salas, com fechamento de salas de rua e começou a haver o fenômeno internacional dos multiplex.

Como esse novo processo, o Brasil retomou um pouco o crescimento de salas, agora ainda é muito pouco, em relação ao resto do mundo, pensando no tamanho do país e no número de habitantes. Nós precisaríamos chegar a algo em torno de 3 mil salas.

CC-SE - E essa mesma comparação vale para o número de faculdades de cinema no país?

Dora - Temos poucos cursos e temos espaços para mais, pensando nessa idéia da disseminação. Não só curso de cinema, pensando também no audiovisual como um todo, porque não se pode mais pensar só em cinema ou só em televisão. Há uma convergência importante que tem que ser entendida porque o profissional, hoje, não se forma para trabalhar em uma ou outra área apenas. A convergência tecnológica faz com que o profissional possa estar presente em produções que sejam tanto para cinema, quanto para televisão, e daqui a pouco para telefonia celular também.

CC-SE - O incentivo à produção cinematográfica por parte da iniciativa privada vem crescendo?

Dora - Não. Se você for olhar na Lei do Audiovisual quais são as empresas que realmente investem em cinema, a grande maioria é de empresas estatais. As empresas privadas investem muito pouco.

CC-SE - Por uma questão de cultura, de achar que não é preciso?

Dora - Eu acho que o empresariado brasileiro é muito mal formado. Não tem uma preocupação com a cultura, de maneira geral. Acha que cultura não é uma coisa importante para o desenvolvimento do país. É muito egoísta e pensa só no seu lucro e no desenvolvimento do seu nicho. Pensa muito pouco em ajudar e devolver a cultura como também uma forma de ajudar e desenvolver a economia e a sociedade.

CC-SE - Então o investimento em cultura pode ser uma boa estratégia de responsabilidade social empresarial?

Dora – Sem dúvida. Fazer audiovisual tem uma função social fundamental. Através das obras audiovisuais você pode desenvolver uma série de coisas. Ir ao cinema não é só para se divertir, mas também para aprender e para pensar.


0 Responses to “Entrevista - Dora Mourão”

  1. No Comments

Leave a Reply







Secretaria da Cidadania Cultural
       Ministério da Cultura.

 

Rua Teixeira de Freitas, 175, Bairro Salgado Filho

Aracaju-SE CEP: 49020-530 Tel.: (79) 3302-7092 / 3041-8563